O drama do incesto é abordado mais uma vez por Graça Pizá em novo livro da Imprensa Oficial


“afetosecretos | o vocabulário” vem acompanhado por “afetosecretos | o filme”, obra sobre a história de uma mulher presa em uma bolha que, em determinada noite, tem sonhos que retratam um tempo de sua vida cercado de angústias, culpas, medos e silêncios, causados pelo desamor que gerou o incesto. Livro e filme serão lançados no dia 16 de agosto, às 16h30, durante a Bienal do Livro.

afetosecretos | o vocabulário: aporte psicanalítico para a clínica da criança violentada
Graça Pizá
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
224 páginas

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz, no seu artigo 18: “É dever de todos zelar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, aterrorizante, violento ou constrangedor”. A realidade, porém, está bem longe desse ideal, especialmente quando entra em cena a violência sexual contra crianças. E na maioria das vezes, um pesado manto de silêncio abafa qualquer pedido de socorro quando o abuso envolve a relação incestuosa entre pais e filhos. Ultimamente, um número crescente de vozes se levanta contra o sistema familiar que permite e acoberta tão perversa situação. Uma delas é a da psicanalista Graça Pizá, diretora da Clínica Psicanalítica da Violência/Revirança, do Rio de Janeiro.

Agora, o grito de alerta é feito por meio de “afetosecretos | o vocabulário”, novo lançamento da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, pelo selo Imprensa Social, em coedição com a Clínica Psicanalítica da Violência e apoio da Childhood Brasil – entidade que atua com foco na proteção da infância contra o abuso e a exploração sexuais –, a ser realizado no dia 16 de agosto (segunda-feira), às 16h30, no estande montado pela Imprensa Oficial na 21ª Bienal Internacional do Livro. O livro vem acompanhado de um DVD, trazendo “afetosecretos | o filme”. São duas linguagens diferentes que permitem revelar a tragédia vivida por crianças, vítimas do ato violento e criminoso do incesto.

“A sociedade precisa estar atenta a esse drama que destrói tantas famílias e o livro escrito por uma das maiores especialistas no tema traz uma importante contribuição”, avalia Hubert Alquéres, presidente da Imprensa Oficial.

Não é primeira vez que Pizá dá voz a milhares de crianças nessa dolorosa situação. Em 2003, produziu, roteirizou e dirigiu o filme “A escuta do silêncio: o incesto através do olhar da criança em análise”, no qual atores reproduzem falas e fatos reais relatados por elas nas sessões de análise. Um ano depois, foi a vez do livro “A violência silenciosa do incesto”, também publicado pela Imprensa Oficial, coordenado em conjunto com a psicanalista Gabriella Ferrarese Barbosa, no qual 16 especialistas das áreas de Saúde, Educação e Justiça escrevem artigos inéditos sobre o tema do incesto. A publicação ganhou o Prêmio Jabuti de 2005.

As duas fundaram a Clínica Psicanalítica da Violência, em 1996, e criaram a Revirança, uma rede de especialistas para atender e tratar as pequenas vítimas. Desde então, a entidade registrou 3.600 casos de abusos sexuais – 80% deles praticados por pais e padrastos – dos quais 853 prontuários de crianças atendidas entre dois e nove anos serviram de base aos dois trabalhos. A publicação foi ilustrada por desenhos feitos pelos pacientes, que Graça chamou de “vocabulário ilustrado dos afetos emparedados”. “Os desenhos falam dos lugares, dos sentimentos que atravessam o corpo e os afetos invisíveis, próprios do incesto”, diz a psicanalista.

A partir dos conceitos fundamentais da teoria psicanalítica de Freud e seus seguidores contemporâneos, o vocabulário vem se ampliando e incorporando à linguagem expressões que surgem da clínica. Os conceitos correspondem às palavras usadas nos relatos dos sonhos do filme e nas falas em off, realçadas no texto. Alguns já foram publicados, outros, modificados, e muitos são inéditos: afetosecretos, roboneca, criança-fetiche, mãe-aranha, objeto-fi (fetiche do incesto) são alguns dos conceitos criados e adaptados à teoria freudiana, na tentativa de compreender a secreta comunicação, através da linguagem dos sonhos, própria da criança violentada. Esse material inspirou “afetosecretos | o filme”, roteirizado e dirigido por Pizá, entre 2008/2009.

O filme conta a história de uma mulher que se encontra em um futuro distante, em um não lugar, sozinha e que em uma determinada noite, ao dormir, tem sonhos intensos, perturbadores, que trazem imagens de sua infância. Neles, ela está sempre presa a uma grande bolha, durante muitos dias, durante longos anos. Sonho a sonho, ela rememora esse tempo de sua vida cercado de medos, silêncios, angústias, culpas e ameaças secretas. A voz que narra em off simboliza a expressão do psiquismo, ora menina, ora mulher. É a voz que algumas vezes a acusa de não ter percebido o perigo, de se sentir culpada, que a condena ao sacrifício, que lembra os fatos esquecidos e ‘decifra’ o caminho a ser encontrado.

“A criança busca encontrar um sentido, uma razão para o desamor que gerou o incesto. Ela encontra no desejo de fugir, na fantasia de se tornar invisível, o desejo maior de sua vida, e assim poder sair da prisão incestuosa. As imagens produzidas nestes sonhos buscam traduzir a expressão de centenas de crianças que tiveram a oportunidade de falar e simbolizar, em análise, o sofrimento devastador deixado pelo trauma do incesto”, explica Graça Pizá.

Na apresentação do livro, Alberto Concha-Eastman, assessor regional da Organização Panamericana da Saúde (OPS) em Washington DC, ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS), especialista na área de Violência e Lesões, diz que afetosecretos é, além de um forte chamado sobre o incesto na sociedade brasileira, uma reflexão profunda sobre os terríveis efeitos que provocam nas meninas e meninos essas experiências indesejadas, incompreendidas e dolorosas contra as quais lutam e gritam, no filme e no livro, para que outras crianças não sejam submetidas a tais práticas. “As palavras de dor e tristeza, os chamados que fazem as meninas abusadas aos que lhes devem respeito, carinho e amor filial e de quem esperam orientação, exemplos éticos de comportamento, são um reclamo também à sociedade e aos governos para que façam o que lhes corresponde no sentido de por fim a essas práticas”.

Mais informações para a imprensa com Fabio Bahr e Ivani Cardoso (Lu Fernandes Comunicação e Imprensa) pelo Telefone: (11) 3814.4600.

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