Barcarolla lança “Vasco – Memórias de um precursor da globalização”, do jornalista Claudio Lachini
Herói nas conquistas lusitanas nas Índias, esse Vasco foi muito mais longe que Vasco da Gama, chegando até a China. Foi relegado ao esquecimento por beber e fumar com os índios e excomungado por dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil. Iniciou o povoamento do Espírito Santo com 60 ex-prisioneiros do cárcere do Limoeiro, de Lisboa, sendo um dos primeiros portugueses a se render aos vícios tropicais: apreciava as nativas e tinha gosto pela cachaça. Lançamento será na quinta-feira, dia 25, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos
Vasco – Memórias de um precursor da globalização
Claudio Lachini
Editora Barcarolla
264 páginas
R$ 28,00
A Editora Barcarolla lança no dia 25 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, o livro Vasco – Memórias de um precursor da globalização, do jornalista Claudio Lachini. Não é mais uma história do famoso navegador Vasco da Gama, dito descobridor do Caminho das Índias. Pouco conhecido dos brasileiros e dos seus patrícios portugueses, Vasco Fernandes Coutinho (1488-1561) chegou ao Brasil em 1535 com status de herói. Antes de pisar em terras brasileiras, lutou em Goa, na Índia, em Malaca, no sudoeste asiático, e foi alcaide em Ormuz, pequena ilha no Golfo Pérsico. Na caravela Grórya, trouxe 60 ex-presidiários que foram libertados da prisão do Limoeiro, Lisboa, por ordens de Dom João III. Foi o primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo e também “um dos primeiros portugueses a se render aos vícios tropicais: além de apreciar as nativas, tinha gosto pela cachaça”, avisa o jornalista Geraldo Hasse na orelha do livro.
“Vasco” é um romance histórico e traça o perfil de um ser humano corajoso, que desejou o bem e a concórdia e não fugiu do combate segundo as regras do seu tempo. Tais virtudes, porém, não impediram que fosse excomungado pelo primeiro bispo do Brasil, dom Pero Sardinha, por ter “bebido” tabaco. Era dado a “aventuras”. Em Portugal, após abandonar a mulher, Maria do Campo, amasiou-se a Ana Vaz de Almada, com quem veio para o Brasil com seus filhos Vasco VI e Catarina. Em terras tupiniquins, “acoitou-se” a uma centena de índias, as quais iniciou na libidinagem com consentimento de cada uma delas. Na velhice, encontrou apenas solidão e desgosto. Frei Vicente do Salvador, o primeiro historiador nativo, escreveu que ele morreu tão pobre que não tinha “nem um lençol para o amortalhar”.
No livro, Lachini mistura ficção e história para contar as memórias desse fidalgo pouco conhecido e mal visto no Brasil. Utiliza-se, para isso, de uma narrativa em primeira pessoa e de um “sotaque lusitano”, o que acaba por provocar no leitor uma certa nostalgia ao fazê-lo “passear” por um tempo que não existe mais. O autor também caminha no terreno do realismo fantástico, “sobretudo na figura do gaiteiro Cheira-Dinheiro, um tipo ao mesmo tempo desleixado e ganancioso, protótipo da alma gentil do povo que se formaria no Brasil”.
O desenvolvimento da narrativa é entrelaçado por diálogos fictícios e fatos históricos encontrados na extensa bibliografia pesquisada pelo autor. Para reconstruir o cenário de época descrito no livro e dar o sotaque lusitano à obra, Lachini trabalhou por mais de um ano em pesquisas e consultas bibliográficas. O autor recorreu a mais de 40 livros importados de Portugal, consultou o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, as bibliotecas da PUC-RJ e da USP, a Biblioteca da Universidade de Nova York, a Biblioteca Nacional de Portugal e o Arquivo Público do Espírito Santo.
Lachini conta que Vasco Coutinho morreu aos 73 anos. Era então dono de um engenho de açúcar, canaviais e 15 escravos negros. Doente e perseguido por Mem de Sá, o terceiro governador-geral do Brasil, e intrigado pelos padres, o donatário renunciou ao cargo de capitão, mas não à capitania, tendo vivido seus últimos anos na casa que tinha na pedra da Caiçara, na Praia da Costa, em Vila Velha. “Esse mundo de Deus não me é estranho, porque aprendi a ver sua largueza onde o mar me levou e compreendi sua pequenez a cada ser humano que encontrei”, diz Vasco, que esteve na China em 1522 e de onde voltou fugido. Assim, “esse Vasco da Grórya” foi mais longe do que seu homônimo Vasco da Gama, sendo um homem de transição entre o feudalismo e a idade moderna.
A publicação de Vasco – Memórias de um precursor da globalização é patrocinada pelo Instituto Sincades e conta com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo (Secult).
Sobre o autor
Claudio Lachini nasceu no interior do Espírito Santo em 1941. Estudou Direito antes de se tornar jornalista. Em 1964, foi preso em Vitória por militância político-estudantil. Trabalhou na equipe original da revista Veja (1968). Como jornalista, atuou principalmente em São Paulo e Curitiba. Encerrou a carreira como diretor da Gazeta Mercantil, jornal cujos 80 anos de história condensou no livro Anábase, publicado em 2000. Entre outras obras, escreveu Sperandio, romance sobre a imigração italiana no Espírito Santo, lançado em 2007 também pela Barcarolla.


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