Vacina de catapora: sem prazo


Fonte: Jornal da Tarde - SP

1 de outubro de 2010 | 1h04 |

Fábio Mazzitelli e Mariana Lenharo

Responsável pelo fornecimento da vacina contra catapora (varicela) para o governo paulista, o laboratório farmacêutico GlaxoSmithKline informou nesta quinta-feira, 30, via nota, que está “cumprindo todos os prazos de entrega estabelecidos em contrato assinado” com a Secretaria Estadual de Saúde, mas não deu previsões para a entrega da nova remessa.

A vacina está em falta em São Paulo desde o início do mês, como revelou ontem o Jornal da Tarde, num momento em que o Estado passa por surtos da doença: o número de mortes de crianças até setembro deste ano já é mais que o dobro em relação a 2009 inteiro.

Não houve, segundo o laboratório, atrasos. O número de doses encomendadas pela Secretaria é que não foi suficiente para suprir a demanda.

O governo paulista, contudo, nega erro de planejamento na compra das vacinas e diz já ter solicitado ao laboratório o adiantamento da próxima entrega, inicialmente prevista para novembro. Haveria uma “escassez da vacina no mercado internacional”, de acordo com a empresa produtora.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, das 200 mil doses compradas neste ano 60 mil foram entregues na primeira remessa, já esgotada, e as outras 140 mil devem chegar no próximo lote – mediante a antecipação emergencial solicitada pela pasta.

“Em relação ao pedido de antecipação, afirmamos que estamos implementando todos os esforços possíveis para que consigamos atender a solicitação emergencial da Secretaria de Estado da Saúde do governo de São Paulo”, informou o laboratório, via nota.

O governo paulista alega que houve ‘adiantamento’ do surto de catapora neste ano. Historicamente, contudo, ele ocorre justamente entre o fim do inverno e o início da primavera – ou seja, no final de setembro. A pasta diz que as projeções de compra da vacina foram baseadas em dados epidemiológicos dos anos anteriores.

“De maneira nenhuma houve erro da secretaria na compra da vacina. O pedido foi de 200 mil doses. A média de consumo da vacina no Estado nos anos anteriores foi de aproximadamente 100 mil doses”, diz, em nota, a Secretaria Estadual de Saúde, que não revelou os valores envolvidos no contrato de compra das vacinas.

“A situação epidemiológica da varicela neste ano não justifica nenhum tipo de alarme. O número de casos no Estado até setembro, 10.018, está abaixo da média dos cinco anos anteriores. Em 2005, por exemplo, foram quase 30 mil casos no Estado”, diz a pasta.

Em relação a 2009, contudo, o quadro é expressivo. Neste ano, o número de surtos de catapora no Estado é o maior desde 2008. Além disso, até 14 de setembro deste ano foram notificadas 15 mortes de crianças em decorrência da doença – ante 7 óbitos em 2009.

A vacinação em creches faz parte de protocolo técnico de saúde para bloqueio de surtos e controle da catapora em São Paulo, já que nas creches a incidência e a taxa de mortalidade da varicela são maiores que na população em geral – as crianças até 4 anos formam o público mais vulnerável ao vírus.

Pelo protocolo em vigor no Estado, o surto nessas instituições de ensino é caracterizado pela confirmação de dois ou mais casos da doença, o que obriga o gestor da creche a informar uma autoridade de saúde.

Segundo o pediatra Evandro Baldacci, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a imunização nas crianças tem de ser feita até 48 horas após comunicação do surto pelos gestores da creche. Esse procedimento não é obrigatório em outros Estados.

Para Baldacci, em relação às vacinas, “era prevista uma determinada quantidade, que extrapolou. Mas não é nada que fuja para dizer que erraram redondamente”. O infectologista David Uip, por outro lado, classificou ontem a falta de vacinas contra a catapora no Estado como algo “intolerável”.

Saiba mais:

Na falta da vacina, o que se pode fazer para evitar o contágio?

> > A catapora é uma doença benigna e a cura se dá por reação do próprio organismo. Independentemente da vacina, é muito importante que as pessoas infectadas mantenham a higiene, lavando bem as mãos com bastante água e sabonete bacteriano, além de ingerir líquidos de forma abundante, fazer repouso e nunca arrancar as crostas que se formam no corpo

Quais os cuidados indicados?

> > O principal sintoma da catapora é a febre que dura de dois a três dias. Passado esse período, caso a febre não ceda, a recomendação é que as pessoas procurem avaliação médica pois isso pode indicar infecção bacteriana

A vacina vale para a vida toda?

> > Sim. Em crianças, são necessárias doses de reforço de cinco em cinco anos, até a adolescência

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