Reforço de esperança


Fonte: Correio Braziliense - DF

No Brasil, a mortalidade de crianças em decorrência de pneumonia ainda é altíssima. Ainda neste ano, o Ministério da Saúde vai incorporar uma vacina ao calendário básico. Clínicas particulares já oferecem opções de imunização

Por Flávia Duarte

Darwin falava de seleção natural. O exemplar mais fraco da espécie, aquele especialmente vulnerável a doenças, caminhava rumo à extinção. Esse risco nunca deixou de assustar os seres humanos, dizimados aos milhares por vírus e bactérias. Felizmente, os avanços da medicina nos legaram uma importante invenção: as vacinas. Graças a elas, epidemias foram controladas e incontáveis vidas, poupadas.

O funcionamento das vacinas é simples: injeta-se no organismo uma forma atenuada ou morta do vírus. Isso basta para estimular nosso sistema imunológico e criar resistência extra contra a forma agressiva do agente infeccioso. De acordo com o Sabin Vaccine Institute, as campanhas de vacinação salvam, por ano, cerca de 2 milhões de crianças menores de cinco anos. A má notícia é que esse mesmo número de meninos e meninas continua morrendo em decorrência de doenças que seriam facilmente evitáveis pelo uso da substância.

No Brasil, as enfermidades desse gênero que mais preocupam são as chamadas doenças pneumocócicas, causadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae. O micro-organismo provoca pneumonia, otite, meningite e diversas doenças respiratórias. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que, a cada hora, duas crianças são vitimadas por males dessa ordem. A maioria delas é brasileira, confirma a pediatra Gail Rodgers, diretora de vacinas da Pfizer. “O risco de uma criança brasileira com pneumonia morrer é de mais de 60%”, aponta. As estatísticas seriam menos cruéis se houvesse uma imunização ampla.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar no Brasil a adoção da Prevenar 13, vacina que protege contra os 13 tipos mais agressivos de bactérias causadoras de pneumonia. Ela é indicada para lactantes e crianças entre 6 semanas e 6 anos de idade incompletos. A vacina foi desenvolvida com os mesmos fundamentos científicos de Prevenar 7, a primeira vacina pneumocócica conjugada, lançada em 2000 e já aplicada por aqui.

A nova vacina foi produzida após anos de pesquisa pela Pfizer, em Pearl River, nos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, leva-se quase um ano para concluir uma dose. São meses entre a fermentação do polissacarídeo (encontrado nas membranas externas das células de cada uma das diferentes cepas bacterianas que se ligam a uma proteína de transporte), a clarificação e a purificação.

Por enquanto, a Prevenar 13 só está disponível no Brasil em clínicas particulares. Ao longo de 2010, o Ministério da Saúde promete incorporar ao calendário básico de vacinação a vacina pneumocócica 10 valente, que imuniza contra 10 sorotipos causadores da doença. “O imunizante será fabricado no Laboratório Biomanguinhos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)”, diz nota do Ministério.

Quem não quiser esperar a campanha nacional do governo poderá se imunizar pagando pela vacina. João Fittipaldi, diretor médico da Pfizer no Brasil, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que a Prevenar 13 é composta de três doses e mais um reforço, a partir da sexta semana de vida. Segundo ele, a criança que começou a usar a vacina 10 valente poderá receber a 13 valente para fechar o cartão de vacinas. “Isso confere a ela a imunidade em relação aos sorotipos adicionais”, esclarece. O resultado é que, com as crianças imunizadas, interrompe-se o contágio e a doença tende a ser erradicada. É a medicina mais uma vez driblando as leis da seleção natural.

Entrevista Fábio Franco

Especialista em infectologia, Dr. Fábio Franco é presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista à Revista, ele explica como o homem está conseguindo vencer a guerra contra os vírus e bactérias.

Qual a ação básica da vacina no organismo?
As vacinas estimulam o sistema imunológico a desenvolver anticorpos ou produzem a diferenciação de células do sistema imune, que também atacam os invasores. O organismo, após esse processo, se for exposto ao agente infeccioso, consegue montar uma resposta de defesa mais eficiente e rápida. Na verdade, essa é a função do sistema imunológico — reagir a qualquer matéria estranha, não reconhecida como própria do organismo. A imunização vale-se dessa característica — estimulação do sistema imune por algo parecido com a doença propriamente dita, mas sem as consequências do adoecimento.

Por que algumas doenças podem ser prevenidas com vacinas e outras não?
Há vários motivos. Um dos mais importantes está relacionado à enorme capacidade dos agentes infecciosos sofrerem mutações. Esse é o caso do vírus da Aids — é extremamente mutável e, assim sendo, uma vacina feita para uma determinada cepa de vírus poderá não agir em outras variantes. Busca-se então encontrar estruturas do vírus que sejam mais fixas. Muitas vezes, porém, o sistema imune não é capaz de produzir anticorpos que neutralizem o agente infeccioso em questão (mais frequentemente vírus ou bactérias). Outro recurso usado são as substâncias que, acopladas aos fragmentos do imunizante, facilitam seu reconhecimento pelo sistema imune, elevando sua potência (pneumococo conjugado, Haemophilus).

Quando surge um surto de determinada doença, como aconteceu com a gripe H1N1, logo são desenvolvidas vacinas específicas. Como isso é feito?
No caso da gripe H1N1, já havia conhecimento acumulado na produção da influenza sazonal (gripe comum), e os processos de produção já eram bem estabelecidos. A produção da maioria das atuais vacinas baseia-se em técnicas clássicas, já consagradas:
a) Agentes vivos atenuados — cultivo sucessivo do agente e em culturas de tecidos repetidas vezes, o que leva à modificação, com perda da virulência (varicela, sarampo, caxumba).
b) Agentes inativados — cultivo do agente infeccioso, com posterior concentração, inativação e purificação (coqueluche).
c) Vacinas fracionadas — fracionamento químico do agente, com preparo de fragmentos ou partes do agente (influenza, HPV).
d) Por engenharia genética — fragmento de material genético é inserido em um agente vivo (um fungo, por exemplo), que é “escravizado” e passa a produzir fragmentos imunologicamente ativos do vírus, a partir das instruções contidas nesse fragmento nele inserido (Hepatite B).

Por que a vacina da H1N1, mesmo depois de ser aplicada, estava
sendo testada pelo HU na USP?
As vacinas contra o vírus Influenza A H1N1 2009 que estão sendo testadas no HU são produzidas pelo próprio Instituto Butantan, ao passo que as vacinas ora usadas no Brasil são de grandes laboratórios multinacionais. Por isso, estão sendo testados vários “candidatos”, para avaliar quais são as formulações mais eficientes e com menos efeitos colaterais. Um dos grandes problemas da gripe A H1N1 é que, pelo fato de o vírus ter sofrido mutações, e ser “novo”, pode-se supor que a imensa maioria da população mundial não seja imune, facilitando a propagação. Felizmente, esse vírus é muito menos agressivo do que aquele que flagelou a humanidade em 1918 (gripe espanhola), com algo entre 50 e 100 milhões de mortes.

Por que certas vacinas causam efeitos adversos?
Ao vacinarmos, estamos introduzindo algo estranho ao organismo. O sistema imune iniciará uma ampla reação, com aspectos positivos e, eventualmente, negativos. Além disso, muitas vacinas contêm substâncias às quais o indivíduo vacinado pode ser alérgico — é o caso da vacina da gripe, que, por ser produzida em ovos embrionados, pode desencadear reações severas em indivíduos predispostos.

Hoje, a grande aposta das pesquisas está em desenvolver alguma vacina específica?
A vacina mais importante em desenvolvimento é a da Aids. Ainda estamos bem distantes da disponibilização de uma vacina eficiente, mas os cientistas nos dizem que estamos começando a ver, bem longe, luz no fim do túnel.

Por que algumas vacinas são consideradas obrigatórias, como a polio? E por que existe idade certa para tomá-las?
Trata-se de uma área muito complexa. A obrigatoriedade das vacinas está relacionada à sua eficácia, perfil de segurança, importância da doença em questão, segurança e custo. A eficácia das vacinas depende, também, da maturidade do sistema imune (lactentes respondem menos), declínio ou doença do sistema imunológico (envelhecimento, doenças como HIV etc.).

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