O romancista Marcelo Mirisola lança Charque e mostra que seu estilo ácido e cativante não perdeu a pegada
Fonte: Estado de Minas - MG
O romancista Marcelo Mirisola lança Charque e mostra que seu estilo ácido e cativante não perdeu a pegada
André di Bernardi Batista Mendes
Publicação: 11/02/2012 04:00
Mirisiola define seu Charque como uma espécie de autobiografia de um reincidente, que teima em fazer coincidir vida e obra
O paulista Marcelo Mirisola acaba de lançar, pela Editora Barcarolla, Charque, seu 12º livro. Trata-se de uma poderosa e inquietante autobiografia, um segundo volume, que faz contraponto com O azul do filho morto, lançado em 2002. Sem personagens, sem enredo, Mirisola mostra os dentes, rosna e ruge, sem afagos e puras rosas. Feito um cachorro louco, como um cão, ele vai com a boca, avança com os dentes, morde como pode. Lobo, cadela, cobra que morde, rindo, o próprio rabo.
Escracho, grossa ironia, chumbo grosso. Charque, segundo o dicionário, é carne, bovina, salgada, seca, em mantas ou pedaços. O charque de Mirisola remete ao sumo, ao sangue carnoso da vida, em estado bruto, da pedra a um suposto céu, que não existe, é claro. Escárnios e um pouco de ternura. Mirisola aponta para o lado mesquinho, para a contramão da via estreita.
O bacana, o legal da brincadeira, o transe da vida é que podem existir várias versões para a mesma versão. Se Mirisola mente? Com certeza. Se ele fala a verdade? Sim, é tudo verdade. Mirisola descobriu que a hipocrisia e o engano podem ser transcendentais. Na ponta da faca, na agulha, o erro incita e inebria. “Cada um tem suas fomes, hinos e necessidades.” Algumas páginas do livro sugerem, apenas sugerem, aquele transcendente. É ali que mora o perigo do livro. No jogo, no quase gol, na quase felicidade. Nos tropeços e desacertos mora um mínimo bocado de sol.
Mirisola é apenas um cego entre cegos, mas um cego debochado que, ao fingir que enxerga, vê, ou finge, belamente. Sempre em fuga, evitando “o silvo rouco das sereias”, ele começa o seu relato de forma contundentemente simples: “Fui enganado ou continuo sendo enganado”. A literatura, a vida é cheia de grandes – e pequenas – armadilhas. Estropiado, sujo, bêbado e enganado. Mas o escritor dá o troco equivalente, na mesma moeda.
Mirisola resume sua ópera, transformada em livro: “Trata-se, pois, da autobiografia de um reincidente, cuja vida e obra, às vezes, coincidem ipsis litteris com os poucos acertos e os muitos enganos que andei cometendo por aí”.
Ainda que o autor se esforce para negar, ainda que ele busque sombras, nada mais que sombras e sobras, indiferença e escárnio, um tanto de delicadeza, sim, de delicadeza, surge de algumas entrelinhas. O que torna, sim, sua literatura interessante. Engodo é uma palavra cheia de neblinas.
Não deve ser fácil administrar um zoológico, um circo, uma alma cheia de hienas, rinocerontes azuis e submarinos amarelos. Não deve ser nada fácil passar semanas vivendo como se fosse um agrião ou um pé de couve. Entre perfumes e a “morrinha dos ciganos”, entre manchas de batom, entre guimbas de cigarros, entre putas e camaradas, Mirisola forja o seu calmo turbilhão, o seu leve caos. A vida é cheia de “minicalamidades”.
Pode ser interessante uma pessoa que nutre “um interesse por palavras que levam sua imaginação para o fundo da terra”, lugar de fogo e sementes.
Quase história Mirsola é, ao mesmo tempo, safo, vidente, manipulador e sacana, não nessa ordem. Um ser humano, de certa forma, sofisticado. Mirisola prefere o recuo. “Afinal ele não se antecipava, apenas recebia os afagos e as escarradas de boca aberta.” Uma pessoa às vezes fica cheia de tristezas, cheia de desabamentos.
Que o autor de Charque não me leia, mas prefiro o difícil, vou, como ele, pelo caminho estreito. Deixo de lado possíveis exageros, artifícios do estilo, que quer chamar a atenção para o grotesco, para a linguagem crua, desprovida de maquiagens e cheias e palavrórios, para me concentrar no que o livro traz de ternura. Salva o conjunto aquele menino que, uma vez, virou musgo, que queria sentir a umidade da terra. Salva o livro o talento de um grande escritor que conta uma boa história, ou quase história.
É preciso coragem para dizer que compaixão e cinismo são a mesma coisa, faces da mesma moeda. Assim é Mirisola, “desde muito cedo, um sadomasoquista enfadado e um cristão exemplar, movido a culpa e tesão” que “com um pouco mais de empenho teria chegado à levitação”.
“A mesma aptidão que lhe faltava para as serestas, faltava-lhe para o rock’n’roll. Faltava-lhe, enfim, aptidão para existir. Só existia olhando para o chão.” As coisas, no mais das vezes, merecem pedradas. Tudo falha e desliza, foge de nossas mãos. As coisas são risíveis, ridículas. Mirisola fala, sem piedade, de si, e dos outros. Sobram cacos de vidros para tudo e todos, do grupo Titãs a Chico Xavier, passando por Lulu Santos, Machado de Assis, tias e tios, avós e avôs. Mirisola evita metáforas, rimas e metalinguagens, essas bobagens. Mistura, na delícia, ficção e realidade. O barato de Mirisola é justamente este, perceber fissuras para se detonar e para detonar o alheio.
O problema é insolúvel: Marcelo sabe que o bolo desandou, que a janta esfriou. Contudo, ele descobriu: “Sou socorrido pela sintaxe, que é coisa divina. Quase sempre a sorte me favorece. Às vezes o lixo se transforma em ouro”.
Sem mínimas ternuras o veneno não faz efeito. Cheio de um duro escárnio, Mirisola, através da palavra, sabe preparar o seu verbo-cicuta. Diante de todos os seus abismos e glórias (que são poucas, pouquíssimas, senão inexistentes) o danado apenas ri, convidando para o salto necessário. Mirisola decifra o próprio enigma daquele “garoto de olhos tristes e amendoados que gostava de cavar buracos na areia do playground e não se entendia com os trapézios, nem com os brinquedos e muito menos com a selvageria de seus coleguinhas de escola”.
A ficção desvenda, abre, sugere um outro naipe, uma outra forma de realidade. O real é sonho, sem reparo. As coisas, assim, não se misturam, mas nada é estanque e nessa correria, nessa corredeira tudo vai e vem, sobe e desce, vai e volta, (tudo se dissolve) no turbilhão de águas que se cruzam, embaralhadas. Fantasia, mentira, realidade: o rio é um só. O futuro mar.
Marcelo Mirisola nasceu em São Paulo, em 1966. Publicou, entre outros, O azul do filho morto, O herói devolvido e Joana a contragosto.


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