O amor sufocado pela utopia


Fonte: A Gazeta - ES

São Paulo
Uma duradoura história de amor, resistente até a momentos turbulentos da História. Para escrever “O Planalto e a Estepe”, o angolano Pepetela inspirou-se em um relacionamento real que, temperado pelas técnicas da ficção, se transformou na paixão do angolano Júlio pela mongol Sarangerel em plena União Soviética durante a década de 1960, quando diversos ideais humanitários ruíram por conta da truculência de governos.

Júlio é um estudante entusiasmado com os ideais da revolução. Também desejosa de um mundo mais justo, Sarangerel se apaixona pelo angolano quando ambos estudam em Moscou. O que seria um simples relacionamento, no entanto, se transforma em um drama de separação, uma vez que ela é filha de um alto dirigente da Mongólia que lhe reserva casamento com um importante figurão de seu país.

Pepetela aproveita uma fase delicada da humanidade para mostrar a falência das ideologias – no momento em que os interesses coletivos abafavam as individualidades, o aparente fracasso da união entre os jovens faz eco com a desilusão de um regime que se proclamava perfeito, mas que, na verdade, vivia submerso nos mesmos vícios daqueles que criticava.

O tema, aliás, fascina Pepetela (pseudônimo adotado pelo sociólogo Arthur Pestana). Sobre o assunto, o autor respondeu às seguintes questões, por e-mail.

Os amores são mais impossíveis hoje que décadas atrás, mesmo com toda evolução das formas de comunicação? Por quê?
Acho que os amores são sempre difíceis (impossível não há) e é isso que lhes dá gosto especial. Falo dos amores de que nos recordamos. As dificuldades até podem mudar com os tempos e as circunstâncias, mas continuam a apimentar uma história.

Em “O Planalto e a Estepe”, a derrocada do amor é inevitável por conta do desmoronar da União Soviética?
Espero que os leitores não o compreendam assim. Houvesse derrocada ou não, esse amor existiu e teve o fim que lhe foi apontado.

A narrativa sofre grandes transformações, a ponto de o primeiro capítulo do livro ser muito distinto, por exemplo, do penúltimo. Como foi o processo de criação?
Normalmente não conheço o fim dos meus livros, até lá chegar. Neste caso, antes de o começar, sabia como terminaria, por se tratar de uma história que tem um fundo de verdade. Como cobre um espaço de tempo relativamente longo e mesmo espaços geográficos variados, pode acontecer que os ritmos de narrativa mudem, por vezes saltando anos, por vezes se debruçando mais demoradamente sobre um detalhe. Será uma explicação possível. Também pode ter a ver com a expectativa do leitor.

A falência das utopias ideológicas é o pano de fundo para a história de amor.
Conto uma história de amor que aconteceu realmente nas suas linhas mestras. Pela própria atividade do personagem masculino, a trajetória segue um pouco da História de Angola. Parece-me ser esse o pano de fundo. Se houve utopias que se mostraram pelo meio, isso é devido apenas ao fato de elas terem tido interferência na história de amor.

Racismo é um tema delicado, tratado devidamente no livro. É um problema preocupante na África, não?
O racismo é um problema cada vez mais preocupante no mundo inteiro. A dado momento, parecia que avançávamos para sociedades mais permissivas e diversificadas, mas, de repente, há regressos dolorosos a preconceitos absurdos. Claro, as sociedades vão sendo cada vez mais diversificadas e é impossível impedir isso, mas há sempre tendência de uns quererem atirar os outros para guetos. Será que o homem é mesmo um animal racional? Por vezes parece ser apenas animal.

Leia
Pepetela – “O Planalto e a Estepe”

Leya Brasil 192 páginas
Quanto: R$ 34,90

Leitura dinâmica
Flip Colum McCann vem ao Brasil

O irlandês Colum McCann é o primeiro nome confirmado para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que acontece de 4 a 9 de agosto. Autor de dois livros de contos e seis romances, como “Zoli” e “The Slide of Brightness”, McCann foi traduzido para mais de 30 línguas. Seu último livro, “Let the Great Word Spin”, considerado “o primeiro grande romance sobre o 11 de Setembro”, parte da famosa travessia do equilibrista francês Philippe Petit entre as torres do World Trade Center de Nova York, em 1974. O livro garantiu a McCann a vitória do National Book Awards, no ano passado. Sob o título “Deixe o Mundo Girar”, sairá no Brasil pela Record ainda no primeiro semestre deste ano.

Mercado
Contos de Clarice publicados na China

Em breve, a escritora Clarice Lispector poderá ser lida pelo público chinês. Depois de ganhar edições em mais de 15 idiomas, como checo, russo, croata e até coreano, chegou a vez do mandarim. As coletâneas de contos “Laços de Família” e “Felicidade Clandestina” acabam de ser negociadas para o gigante mercado chinês, onde serão editadas pela Shangai 99, casa de autores como Philip Roth, Paul Auster, Stephen King e Dan Brown. Por aqui, a Rocco comemora o sucesso da coletânea de crônicas “Clarice na Cabeceira” (Rocco, 256 páginas, R$ 32), organizada por Teresa Monteiro, que já vai para a terceira reimpressão.

LANÇAMENTOS
Pedro Pablo G. May – As Chaves de O Símbolo Perdido
Planeta 256 páginas
Quanto: R$ 29,90, em média
Desde os rituais e os segredos da maçonaria até o simbolismo da arquitetura de Washington, este livro contém todas as chaves necessárias para mergulhar nos enigmas de “O Símbolo Perdido”, de Dan Brown. Em uma investigação inédita, o autor desvela as raízes ocultas da maçonaria na Espanha.

Ian Rankin – O Enigmista
Cia. das Letras 544 páginas
Quanto: R$ 49, em média
Ao investigar o desaparecimento de uma estudante de história da arte e filha de banqueiro – o namorado dela é o principal suspeito –, o detetive John Rebus enfrenta um intrincado novelo de pistas, que inclui misteriosas miniaturas de caixões com sinistras bonecas dentro e um personagem chamado Enigmista, que comanda um jogo na internet.

Ruy Espinheira Filho – Sob o Céu de Samarcanda
Bertrand Brasil 240 páginas
Quanto: R$ 35, em média
Autor dos premiados “As Sombras Luminosas” e “Memórias da Chuva”, Ruy Espinheira apresenta, nesta nova obra, poemas com temas diversos, com pinceladas sobre solidão, memória, dor, anjos, velhice, morte e amor. Apesar da aridez dos tópicos, os versos são conduzidos com extrema sutileza.

José Antonio Pedriali – Fuga dos Andes
Record 400 páginas
Quanto: R$ 57,90, em média
Nesta trama, o jornalista Humberto Morabito interrompe suas férias no Peru para acompanhar um grupo de repórteres que investigará o assassinato de guerrilheiros do Sendero Luminoso. Confundidos com terroristas, os jornalistas são mortos, exceto Humberto, que não consegue se juntar ao grupo após se apaixonar por uma misteriosa mulher.

O que você está lendo?
Flávia M. Ribeiro Setubal, Publicitária e professora universitária

O filho-presente – Kabouna Keita e Fred Muller
Qual é o tema do livro?
É a biografia de Kabouna, um menino africano que, ao nascer, foi dado de presente a uma das co-esposas de seu avô, pois ela era estéril.

Por que vale a pena ler?
Porque conta a história de luta e perseverança desse pequeno malinense, até os dias atuais; um homem empreendedor, trabalhador e inquieto, que passou por três continenses até se tornar um respeitado educador de delinquentes na Europa.

A que o leitor deve estar atento?
Aos valores que Kabouna recebeu em sua educação e que o fizeram nunca desistir, não se desviar de seu caminho e nunca ter medo do trabalho, encontrando, aí, sua dignidade e sucesso.

Mais vendidos (ficção)
1. O Símbolo Perdido. Dan Brown. Sextante.
2. A Cabana. William P. Young. Sextante.
3. Eclipse. Stephenie Meyer. Intrínseca.
4. Crepúsculo. Stephenie Meyer. Intrínseca.
5. Lua Nova. Stephenie Meyer. Intrínseca.
6. Amanhecer. Stephenie Meyer. Intrínseca.
7. Diários do Vampiro – O Despertar. L. J. Smith. Record.
8. Diários do Vampiro – O Despertar. L. J. Smith. Record.
9. O Vendedor de Sonhos. Augusto Cury. Academia de Inteligência.
10. A Senhora do Jogo. Sidney Sheldon. Record.

Fonte: Livrarias Logos, Leitura e Saraiva

Mais vendidos (não-ficção)
1. Mentes Perigosas. Ana Beatriz Barbosa Silva. Objetiva.
2. Comer, Rezar, Amar. Elizabeth Gilbert. Objetiva.
3. Uma Breve História do Mundo. Geoffrey Blainey. Fundamento.
4. Minha Fama de Mau. Erasmo Carlos. Objetiva.
5. O Andar do Bêbado. Leonard Mlodinow. Jorge Zahar.
6. Honoráveis Bandidos. Palmério Dória. Geração.
7. O Código da Inteligência. Augusto Cury. Thomas Nelson.
8. Encontre Deus na Cabana. Randal Rauser. Planeta.
9. O Futuro da Humanidade. Augusto Cury. Sextante.
10. Quem Me Roubou de Mim? Fábio de Melo. Canção Nova.

Fonte: Livrarias Logos, Leitura e Saraiva

Caderno 2 Recomenda
1. Céu de Origamis. Luiz Alfredo Garcia-Roza. Cia. das Letras.
2. O Apanhador no Campo de Centeio. J. D. Salinger. Editora do Autor
3. Histórias Curtas para Mariana M. Francisco Grijó. Flor Cultura.
4. A Estrada. Cormac McCarthy. Alfaguara.
5. Escuro, Claro. Luís Augusto Fischer. L PM.
6. A Volta para Casa. Bernhard Schlink. Record.
7. O Mundo. Juan José Millás. Planeta.
8. O Seminarista. Rubem Fonseca. Agir.
9. Acqua Toffana. Patricia Mello. Rocco.
10. Echo Park. Michael Connelly. Suma de Letras.

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