Livros – Em busca de um lugar ao sol
Fonte: Gazeta Online - SP
15/08/2010 – 00h00 (Outros – A Gazeta)
Ubiratan Brasil
SÃO PAULO
Os mistérios da alma humana alimentam a obra do escritor João Gilberto Noll – mesmo em livros dirigidos aos jovens, quando se espera uma profusão de aventuras, ele prefere tratar de questões fundamentais, como as angústias do amadurecimento. Esse é um dos temas de “Anjo das Ondas”, que segue na mesma linha dos juvenis “Sou Eu!” e “O Nervo da Noite”, livros que também mostram a adolescência como a fase em que dúvidas profundas convivem com certezas absolutas.
Em “Anjo das Ondas”, o escritor narra a história de Gustavo, garoto de 15 anos que, depois de residir na Inglaterra, retorna ao Brasil para passar um tempo com seu pai e acaba vivendo uma apaixonante aventura em busca da identidade. No Rio, ele encontra o seu duplo, na figura de um surfista que foi seu colega no colégio, alguns anos antes. Ponto de partida para o escritor abordar assuntos delicados que muito lhe interessam, como comenta na seguinte entrevista.
O livro aborda descobertas e também as dúvidas que esses momentos provocam. A busca do caminho próprio seria o tema principal?
Comecei a escrever o livro pensando no público juvenil. Mas no processo de criar o fluxo narrativo fui percebendo que eu estava escrevendo uma ficção sem buscar nenhum segmento específico de leitores. Era como os meus livros anteriores. Um trabalho fundamentalmente de linguagem, com um sempre vivo apelo sensual. De juvenil tem apenas a idade do protagonista, pois se trata de um adolescente. Eu diria que o protagonista é o mesmo de alguns livros meus, só que agora entre a nascente juventude e a inserção no mundo adulto. Voltando à sua pergunta, acredito, sim, que se trata de um personagem à cata de si mesmo, rumo às descobertas que farão dele o que chamam de alguém. A sua descoberta mais vital na fase que ele encarna é o da sexualidade e isso é feito na completa escuridão para que ele possa como um cego se preparar contando apenas com a ardência do tato e a respiração ofegante. Para que ele possa ir se preparando para então se lançar ao encontro do outro corpo que já vem vindo, sim.
A solidão leva Gustavo a ver no amigo um pedaço de si mesmo.
Gustavo tem o lado de dentro mais dilatado do que o seu relacionamento com o lado de fora. Dentro de si ele ainda brinca como uma criança. Seu imaginário é superpovoado, hipertrofiado, eu diria, quem sabe levemente ‘esquizo’. Pois o que chamam de loucura é essa hiperatividade do universo interior, deixando pouco espaço para uma interlocução real, efetiva e duradoura. É a adolescência vivida em alto grau de solidão. Ele convive a duras penas com o pai e com a mãe. Almeja uma aventura que não encontra lugar no confinamento do lar. Aí ele parece, sim, com outros personagens meus que já atuam em estágios maduros da vida. Sentem uma aversão à domesticidade. A pessoa chegada com que ele se identifica é a avó, uma cantora lírica que vive em Londres e a qual ele espia durante a troca de roupa nos camarins. É apaixonado por ela. Ele vive estadas em Londres em completa ociosidade. É quando ultrapassa a sua solidão. Nem com a namorada ele conheceu tais situações.
A descoberta de que a realidade do mundo adulto é menos interessante que o universo infantil é um inevitável contraste com a ânsia de amadurecer que marca os jovens?
Esse contraste é o que move a narrativa. Às vezes ele quer avançar, vivenciar a completa autonomia. Em outros momentos ele tem vontade de recuar, de ir ao reencontro de uma fase penumbrosa, na qual retomará contato com as coisas indistintas, condenadas à força dos outros.
Os mistérios da alma humana ainda o inspiram?
É a sondagem desses mistérios que fazem de mim um escritor. Talvez para o bem e para o mal. Não sei… Se um dia eu abandonar essa característica tentando ser um romancista de cunho sociológico ou histórico ou puramente político, você pode escrever, estarei me suicidando literariamente. E não faltou na formação da minha geração a crença numa obra mais engajada em questões exteriores à linguagem (e não falo aqui, por favor, numa visão abastardada, formalista, de incensar o reino do significante, etc.). Não faltou a crença exclusivista em uma obra enfim de conteúdo explicitamente social. Hoje acredito antes de tudo na liberdade do escritor. Que cada escritor vai soprar no espaço em branco o seu próprio carma, a sua sabedoria cavada no atordoamento causado pelo tanto de mistério que nos constitui e humaniza.
Confira
João Gilberto Noll
Anjo das Ondas
Scipione 128 páginas
Quanto: R$ 31,90, em média
Leitura dinâmica – No preloViagem de Bioy Casares ao Brasil
Grande viajante, o escritor argentino Adolfo Bioy Casares queria que suas expedições fossem viagens interiores que o ajudassem a refletir. Em 1960, ele veio ao Brasil, experiência que deu origem ao livro inédito “Uns Dias no Brasil”, que será lançado mundialmente em 6 de setembro, com exposição das fotografias feitas pelo autor e incluídas no volume. A mostra, intitulada “Brasília 1960”, será na Galeria Guayasamín da Casa da América. Em pouco mais de cem páginas, escritas em forma de diário, Bioy descreve suas impressões, reflexões e lembranças sobre o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
Mercado – Literatura lusófona é tema de revista
Uma nova revista sobre literatura pretende estimular o hábito da leitura entre os brasileiros e divulgar os principais escritores dos países de língua oficial portuguesa. A Revista Pessoa, cujo nome é uma homenagem ao poeta português, foi lançada oficialmente pela Editora Mombak na última sexta, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. “A ideia é explorar os pontos de contato da nossa cultura, da nossa história, sem ignorar as nossas diferenças. Além de literatura, a revista terá uma seção que tenta contextualizar essa ligação”, afirma a editora Mirna Queiroz. No Brasil, a versão impressa da revista tem o apoio do Museu da Língua Portuguesa e da Imprensa Oficial de SP.
Lançamentos
Isabel Allende
A Ilha sob o Mar
Bertrand Brasil 476 páginas
Quanto: R$ 49, em média
Allende escreve, neste romance histórico, sobre a vida de Zarité, escrava que foi vendida aos nove anos de idade para o francês Toulouse Valmorain, dono de uma das maiores plantações de cana-de-açúcar nas Antilhas, durante a colonização francesa no século XVIII.
Drauzio Varella
A Teoria das Janelas Quebradas
Cia. das Letras 232 páginas
Quanto: R$ 35, em média
Seleção de crônicas publicadas na “Folha de S. Paulo” durante dez anos, este volume traz uma amostra dos temas de interesse do médico oncologista, que há tempos superou as quatro paredes de seu consultório para refletir sobre o cotidiano urbano.
O que você está lendo?
Vanda Luiza de Souza Netto , Professora de literatura
A Jangada de Pedra
José Saramago
Qual é o tema do livro?
O autor português imagina que a Península Ibérica desprende-se da Europa, a partir dos Pireneus, e vaga pelo oceano rumo a uma provável colisão com as Ilhas Açores. A obra foi relançada pelo autor com renda em benefício das vítimas do Haiti.
Por que vale a pena ler?
Pela escrita sem pontuação de Saramago e pelo uso frequente de provérbios e ditos populares, além da reflexão sobre o comportamento humano em situações extremas.
A que o leitor deve estar atento?
Às muitas referências literárias, históricas, mitológicas, cinematográficas e para o momento em que a expectativa de um desastre é quebrada. Além disso, percebemos o delicado fio de realismo fantástico, presente nos eventos que se entrelaçam com “o fio azul”. Obra perfeitamente instalada na literatura contemporânea, que se volta para os recursos da linguagem num diálogo permanente com textos os mais diversos.
Mais vendidos (ficção)
1. Querido John. Nicholas Sparks. Novo Conceito.
2. A Última Música. Nicholas Sparks. Novo Conceito.
3. A Cabana. William P. Young. Sextante.
4. A Breve Segunda Vida de Bree Tanner. Stephenie Meyer. Intrínseca.
5. Diários do Vampiro – Reunião Sombria. L. J. Smith. Record.
6. Amanhecer. Stephenie Meyer. Intrínseca.
7. Os Imortais – Lua Azul. Alyson Noël. Intrínseca.
8. Sussurro. Alyson Noël. Intrínseca.
9. O Símbolo Perdido. Dan Brown. Sextante.
10. A Batalha do Labirinto. Rick Riordan. Intrínseca.
Fonte: Livraria Logos e Saraiva.
Mais vendidos (não-ficção)
1. O Aleph. Paulo Coelho. Sextante.
2. Comer, Rezar, Amar. Elizabeth Gilbert. Objetiva.
3. Eu Sou Ozzy. Ozzy Osbourne. Benvirá.
4. Múltipla Escolha. Lya Luft. Record.
5. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Leandro Narloch. Leya.
6. Mentes Perigosas. Ana Beatriz Barbosa Silva. Fontanar.
7. Time dos Sonhos. Luis Fernando Verissimo. Objetiva.
8. O Vendedor de Sonhos. Augusto Cury. Academia de Inteligência.
9. Mil Dias em Veneza. Marlena de Blasi. Sextante.
10. Se Abrindo Pra Vida. Zibia Gasparetto. Vida Consciência.
Fonte: Livraria Logos e Saraiva.


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