Jacira Camasmie
Fonte: BBel - SP
Jacira Camasmie
História e arte de uma mulher corajosa, dedicada e organizada
Nascida em Capivari, filha de Jarjura e Helena – imigrantes libaneses, Jacira Camasmie carregou a culinária desde o início de sua vida. Seu nome foi sugerido por um índio que trabalhava com seu pai; Jarjura e Helena acreditaram que Jacira – que significa “inseto que produz mel” – seria um nome excelente para uma homenagem à nova pátria que os acolhera tão bem.
Mesmo quando criança, Jacira demonstrava sua personalidade forte. Era alegre, simpática, dedicada e extremamente inteligente, mas sempre mantendo a doçura e delicadeza. Era a mais velha de seis filhos, a primogênita que dava muito orgulho ao pai.
Era mais ligada à ele, pois, o pai gostava de ler e contar histórias para os filhos. Já a mãe era mais séria e reservada, mas não menos dedicada: tratava os filhos como joias e a eles tratou de ensinar tudo o que era bom e correto na vida.
Aos 13 anos foi estudar no internato Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, onde todas as garotas de boa família estudavam. Lá conheceu o doce francês calissons – feito de ovos, amêndoas, glacê cetim e aquela massa de hóstia, bem fininha.
Seu pai gostava que sua filha se dedicasse às tarefas de meninas, como costura, bordado e música. Para satisfazê-lo, estudou e aprendeu a tocar muito bem o piano. Porém, uma de suas atividades preferidas era cozinhar: adorava se aventurar com os ingredientes. Seu pai não entendia, pois eles tinham empregados para preparar as comidas.
Depois do tempo no internato, o episódio mais marcante foi seu casamento com Jaime Camasmie. Logo de cara a empatia dos dois era notória: ela cheia de vida e ele um rapaz muito elegante. Casaram-se e mudaram para São Paulo. Tiveram três filhos: Raul, Roberto e Daisy.
A rotina da casa era pautada por Jacira: ela fazia listas com as ordens para os empregados, o cronograma e a maneira que deveriam ser feitas as tarefas. Percebeu que organizar e manter essa organização otimizava o tempo e mantinha a qualidade do serviço.
Jacira havia feito diversos cursos de culinária, inclusive com Regina Salles, a mais conceituada culinarista da época. Inclusive, uma das alunas chamava muita atenção: era Nivalda Guazelli di Luizi, que viria a se tornar uma excelente professora de culinária. Mas, Jacira não entendia porque as pessoas não podiam experimentar os pratos ao final da aula; como saber se a comida estava correta e saborosa sem provar?
Jaime morreu de um infarto fulminante, em 1970. Jacira, então, se deparou com uma situação delicada: com três filhos para criar e sem a renda do marido, ela teria que enfrentar a crise sozinha.
Superação
Jacira se matriculou em um curso do Senac e aprendeu a fazer limpeza de pele, onde conheceu Ala Szerman, que se tornou sua grande amiga e foi a responsável pela introdução de duas atividades inéditas no Brasil: academia e Spa. Acabou por montar um instituto de beleza para receber as amigas e conhecidas. Mas, pouco tempo depois, desistiu da ideia.
Sua amiga Mona deu outra sugestão: que tal fazer banquinhos de almofadas de crochê para pés? E assim Jacira fez. A “moda casa” estava em alta. Porém, também largou o ramo quando percebeu que o mercado de bijuterias estava crescendo e também se dedicou a essa área, junto com seu filho artista Roberto, e fabricou peças esmaltadas nas cores marinho e verde. Essa experiência foi muito bem sucedida, mas preferiu se aventurar no ramo de garrafinhas com flores e pratos decorados e, posteriormente, com guarda-chuvas artesanais.
Seu filho Roberto estava trabalhando com casamentos e foi então que Jacira começou a trabalhar com os bem-casados, o docinho mais luxuoso da época. Aprendeu a receita com as irmãs Mariza e Terezinha, que acabaram por montar um império das festas, até hoje um dos mais importantes do segmento: o Mariza Doces, presente em toda festa de peso que se preze.
Em sua cozinha, Jacira fazia, além dos bem-casados, camafeus de nozes e doces de damasco com glacê, todos impecavelmente decorados. A demanda era tanta que ela pediu ajuda a uma antiga professora de culinária, Dona Leonina. Mudou-se para o apartamento da Avenida Paulista, onde, futuramente, seria sua sala de aula.
Em 1972, seu filho Roberto, muito consagrado por suas atividades, foi entrevistado pelo jornal O Estado de S.Paulo. Jacira serviu uma porção de marrom glacê para a jornalista. Surgiu, então, o primeiro curso de sua vida. Ministrou aulas de culinária, com apostilas e tudo, mesclando os ensinamentos da cozinha com aquilo que tinha aprendido na vida. E assim foi até sua morte, em 1994.
Quando os filhos Daisy e Roberto decidiram escrever um livro sobre a mãe, encontraram uma caixa com milhares de anotações que pertenciam à Jacira. Eram fichas de organização e disciplina. Em uma de suas anotações lê-se a frase “Preciso ser muito organizada e planejar bem minhas aulas”, referente ao fato de que ela acreditava que planejar muito era ensinar bem.
Seus filhos compilaram no livro “A Arte Culinária de Jacira Camasmie” o melhor de sua mãe: dedicação, vontade de viver, alegria, perseverança, organização e talento. Nele, a história detalhada de Jacira e sua família vem acompanhada de fotos e imagens marcantes e, principalmente, 50 receitas clássicas, divididos nos capítulos quitutes, entradas, saladas, sopas, arroz e acompanhamentos, aves, carnes, peixes e frutos do mar e massas. Imperdível!
Assista a entrevista com o filho de Jacira, Roberto Camasmie, no programa BBel – Um Estilo de Vida.
Programa Bbel Um Estilo De Vida-Roberto Camasmie


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