Infraestrutura deficiente é freio
Fonte: A Tribuna - SP
No Brasil, alguns problemas parecem destinados a se eternizar. É assim com o ensino, por exemplo, cujas deficiências, apesar de conhecidas há décadas, ainda aguardam por soluções corretivas. O mesmo pode-se dizer da área da saúde, onde até mesmo a assistência paga deixa a desejar. E vamos nos abster de qualquer comentário quanto à (in)segurança. No plano econômico, no entanto, provavelmente muito mais pela persistência e criatividade dos empresários, temos registrado avanços concretos. Que só não são mais abrangentes justamente porque o lado oficial não tem correspondido. Infelizmente, sobram promessas dos governantes de plantão e faltam projetos sérios e bem estruturados. Alguns são anunciados com grande alarde, com títulos que passam a impressão de que, finalmente, a solução está a caminho. Mas, com o passar do tempo, a realidade prevalece. E a realidade brasileira é, para dizer o mínimo, preocupante. Estudo recente feito pela LCA Consultores com base no relatório de competitividade 2009/2010 do Fórum Econômico Mundial mostra que, comparado a outros 20 países com os quais concorre no mercado mundial, o Brasil ficou apenas na 17a colocação no quesito qualidade geral da infraestrutura. Numa escala de 1 a 7 o País obteve nota 3,4, abaixo da média mundial, que é de 4,1. E está a uma grande distância das nações melhor colocadas. A França, que ocupa o topo da lista, teve nota 6,6, seguida da Alemanha (6,5) e dos Estados Unidos (5,9). México, China, Turquia, África do Sul e Chile também receberam melhor qualificação. A principal razão dessa situação, para o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, é justamente a falta de investimentos: “Ficamos décadas sem investir e isso fez com que acumulássemos gargalos que ainda se refletem no estado atual da nossa infraestrutura”. Entre esses gargalos, dois se destacam: o transporte ferroviário e os portos. O primeiro foi vítima de um erro estratégico cometido há algumas décadas. Atendendo a interesses que não os da Nação, sucessivos governos priorizaram o transporte rodoviário, que demanda alto custo de manutenção, e as ferrovias ficaram praticamente abandonadas. Basta lembrar que a malha ferroviária hoje existente, 28 mil quilômetros, é praticamente a mesma que estava implantada na década de 20 do século passado. Se for levado em conta o crescimento do Brasil desde então, teremos uma idéia mais clara do imenso retrocesso nesse modal. Retrocesso que exigirá, caso eventuais ocupantes do Palácio do Planalto reconheçam a prioridade, maciços investimentos por anos seguidos. Quanto à deficiência nos portos, embora não tão grave, basta citar o comentário do coordenador da Câmara de Logística da Associação dos Exportadores do Brasil (AEB), Jovelino Pires: “Até a porteira da fazenda ou a porta da fábrica somos muito competitivos. Não tem para ninguém porque nossa tecnologia é alta. Mas o navio espera 20 dias para carregar e então o preço vai lá em cima.” O empresário lembra, por exemplo, que há anos são comentados problemas de acessibilidade nos portos do Rio de Janeiro e de Santos. Que, como até hoje não foram solucionados, foram agravados com o passar do tempo. Porém, nem todas as soluções exigirão investimentos milionários. A Praticagem de Santos, empresa responsável pela manobra de navios no complexo, tem propostas para melhorar a eficiência e a segurança. Elas farão parte de uma cartilha com sugestões que será entregue aos candidatos que disputam a sucessão presidencial. E todas elas exigirão investimentos mínimos. A principal proposta é a implantação de cabeços duplos de atracação nos terminais. Feitas de ferro, essas estruturas maciças ficam cravadas no piso do cais, quase à beira d’água, e são utilizadas para prender os navios por meio de cabos. Atualmente, no Porto de Santos, só há cabeços simples, o que facilita o entrelaçamento dos cabos e torna mais lento o trabalho de desatracação. A entidade sugere ainda mudanças nas defensas dos berços de atracação e nos flutuantes, considerados inadequados. A cartilha formulada pela Praticagem mostra um dos caminhos que podem ser seguidos pelas autoridades do setor, que é ouvir as comunidades diretamente ligadas às áreas problemáticas. Certamente não faltarão sugestões para que as deficiências na infraestrutura deixem de atuar como verdadeiro freio da economia, como vem ocorrendo há décadas.



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