Humor rima com glamour – Livro reúne deliciosas passagens da vida e da carreira da atriz Carmem Verônica


Fonte: O Norte - PB

A atriz Carmem Verônica, de 77 anos, é chique por natureza. Tem a voz afrescalhada, pose de dondoca e um incrível timing para comédia que já lhe rendeu ótimos papéis. Entre eles, a de Mary Montilla, na novela Belíssima (2006). É praticamente uma “mulher-bicha”, como ela e a saudosa amiga Consuelo Leandro costumavam se tratar. Carmem tem quase certeza de que a expressão usada pela dupla foi inventada por outro grande amigo, o costureiro Dener. “Tem uns que dizem que sou a bicha perfeita, porque até filho eu tenho”, diverte-se ela, em depoimento ao escritor Cláudio Fragata, no livro Carmem Verônica: O riso com glamour.

A biografia integra a Coleção Aplauso e acaba de chegar às prateleiras, num grande lançamento conjunto de 42 títulos da coleção. É com esse tom bem-humorado que Carmem conta, em primeira pessoa, deliciosas passagens de sua vida e carreira. Nascida no Recife e radicada há décadas no Rio de Janeiro, a atriz não se furta em relatar momentos mais amargos, mas tenta fazer isso sem dar muito peso a eles.

A pedido da própria biografada, Fragata preservou no livro seu jeito de falar, com seus bordões, interjeições e alguns palavrões. Mas, claro, sempre com muito glamour. Foram cerca de 12 horas de gravações, em conversas no Rio, São Paulo e ao telefone. “Sempre tive uma grande admiração por esses atores, que fazem personagens populares”, afirma Fragata. Ele sugeriu dois nomes para a coleção: Jorge Loredo, o Zé Bonitinho (cujo livro foi lançado no ano passado), e agora Carmem Verônica.

A bella donna, que teve uma infância lúdica em Pernambuco, iniciou a carreira de artista no Rio, numa época em que mulher nessa profissão não era vista como boa coisa. E apesar da formosura lhe credenciar para a lista de beldades Certinhas do Lalau, criada pelo cronista Stanislaw Ponte Preta, a atriz conseguiu consolidar a carreira pelo talento. Muitas de suas histórias arrancaram gargalhadas do próprio Fragata. Sobretudo as protagonizadas com Consuelo Leandro. Uma das mais engraçadas foi a saga da dupla até a manicure, em pleno dia do golpe militar de 1964. Na rua, Carmem perguntou a um soldado o que estava acontecendo. Ele respondeu que era a revolução. “Acaba com essa merda logo, porque eu e minha amiga vamos fazer pé e mão e quando a gente voltar quero ir para casa com calma”, retrucou.

Entrevista

Como foi rememorar antigas histórias para este livro?

Das épocas, eu me lembro. Já as datas, nunca sei dizer. Só gravei o dia em que nasci. Datas nunca foram meu forte. Quando casei, foi meu marido que começou a botar datas nas coisas.

Por que você não gosta que lhe chamem de vedete?

Odeio que me chamem assim. Ficou pairando no ar que vedetes tinham muitos amantes. Eu sou casada, com o mesmo homem, há meio século. Acho que é um pouco bobo de minha parte pensar assim, mas já está entranhado em mim. Nunca fui puritana. Mas não me julgo vedete.

E o que acha de ser chamada para fazer papéis de dondoca?

Isso é meio calcado na minha personalidade. Talvez, eu carregue na frescura. Acho engraçado. Marcou tanto que não vou renegar.

Um dos momentos difíceis de sua vida foi a perda da amiga Consuelo Leandro, não foi?

Ela era uma excelente comediante. Morreu de câncer por dissabor, por injustiça dos outros. Fazendo uma merda de uma esquete, ganhando um salário de bosta. Ela achava que ia ficar boa. Fiquei de emprestar uma peruca minha, mas ela nunca chegou a usá-la.

Mas você tenta dar menos peso a esses momentos na sua vida.

Sou muito espiritualizada. Quando meu pai morreu, ele era jovem. Eu estudava numa boa escola, mas minha mãe trabalhou duro para que eu e meus irmãos continuássemos estudando lá. Tenho de ir adiante. Passei por uma fase dura no ano passado. Já estava fragilizada com a morte da minha mãe e de uma amiga, quando fui atropelada por um taxista. Estava fazendo a novela Caras & Bocas. Depois, tive embolia na perna e no pulmão. Podia ter morrido. Fiquei meses de cama, em casa. Sentia falta da rua. Fiquei com medo de não voltar a andar, mas Deus foi bom comigo e nunca parei.

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