Guerra contra pólio convence mais um cético


Fonte: UOL - SP

Por Donald McNeil Jr.
The New York Times

Duas semanas atrás, no fim de uma entrevista sobre a real possibilidade de erradicação da poliomielite, Bill Gates murmurou em voz alta a um assistente do entrevistador: “Preciso melhorar minha resposta D.A. Henderson”.

Com isso ele queria dizer que, enquanto estiver comprometendo sua fortuna e prestígio na batalha contra a doença – como fez no dia de uma declaração na antiga casa de Franklin D. Roosevelt em Manhattan -, ele precisará de uma resposta mais forte a jornalistas citando os argumentos de Henderson de que o vírus seria evasivo demais para ser dominado.

Num mundo de especialistas notáveis, por que importa a opinião de um médico específico? Porque, para o bem ou para o mal, o manto foi colocado sobre o venerável Donald A. Henderson, de 82 anos, definindo-o como “o homem que erradicou a varíola”.

Na verdade, a luta contra a varíola – a única bem-s ucedida contra uma doença humana até hoje – teve muitos generais. Um é o Dr. William H. Foege, de 74 anos, um ex-diretor do Centro de Controle de Doenças e hoje consultor sênior da Fundação Bill e Melinda Gates que acredita fervorosamente na erradicação da pólio. Ao longo dos anos, porém, Henderson explicou pacientemente suas dúvidas, em persuasivos detalhes, a muitos jornalistas de medicina que lhe dirigiam perguntas sobre qualquer esforço de erradicação.

O que nem Gates e nem o repórter sabiam era que Henderson havia mudado de ideia dois dias antes.

“Vejo como muito maior a probabilidade de conseguirmos parar o vírus da pólio”, disse ele na quarta-feira, numa entrevista – o oposto do que ele havia dito ao mesmo repórter em 26 de janeiro, cinco dias antes da entrevista de Gates.

“Peço desculpas”, acrescentou ele. “Não é de meu costume virar a casaca desta forma. Não acho que já tenha feito algo parecido antes”.

O que o fez mudar de ideia, segundo ele, foi uma conversa com o Dr. Ciro de Quadros em 29 de janeiro.

Quadros, ex-diretor da Organização Panamericana de Saúde, carrega seu próprio manto: “o homem que encontrou o último caso de varíola na Etiópia e perseguiu a pólio e o sarampo fora do hemisfério ocidental”.

Embora nada tenha mudado com o vírus ou a vacina, vários argumentos de Quadros foram persuasivos, disse ele.

“Eu não conhecia o nível de comprometimento de Gates”, disse ele. “Ele está dizendo que a pólio é sua maior prioridade”.

Além disso, ele ficou impressionado com a comissão de monitoramento de nove pessoas sendo montada para ajudar a Organização Mundial de Saúde. A pólio foi reduzida em 99 por cento desde 1985, mas a última década foi frustrante; houve repetidas epidemias em países onde o vírus havia sido eliminado.

“Houve muito pouca divergência nos últimos 10 anos”, disse ele sobre a abordagem usada pela OMS e seus parceiros, sendo que grande parte dela dependia de novos aportes de financiamento. “Agora, as ideias e os músculos mudaram”, afirmou ele.

O dinheiro da Fundação Gates permitirá maior experimentação da vacina oral usada em países pobres. Em teoria, disse ele, o vírus vivo dentro dela pode ser enfraquecido o suficiente para evitar a minúscula chance – uma em dois milhões – de haver uma mutação e causar paralisia, um problema conhecido como pólio derivada da vacina (uma em dois milhões não é uma probabilidade tão remota quando 134 milhões de crianças são vacinadas em um dia, como aconteceu na Índia em 1998).

E pode ser possível criar uma vacina que não precise de refrigeração. Vacinas estragando sob o sol tropical é um enorme problema para equipes de vacinação rurais.

Além disso, disse ele, o próprio fato de Quadros assumir um papel deve alterar o campo.

“Eu vi ele trabalhando na Etiópia”, afirmou Henderson, que recrutou Quadros para a campanha contra a varíola. “Os obstáculos eram inacreditáveis – o imperador assassi nado, dois grupos revolucionários em luta, nove pessoas de sua própria equipe sequestradas, um helicóptero foi sequestrado e pediram resgate. Ele manteve as equipes em campo – e o piloto do helicóptero saiu e vacinou todos os rebeldes”.

Na última segunda-feira, questionado sobre a troca de opinião de Henderson, Gates disse: “Ele está certo. Estou ansioso para me reunir com ele no próximo mês, e pedir seus conselhos sobre este assunto”.

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