Erradicação da pólio demanda vacina injetável, diz especialista


Fonte: Difundir - SP

Apenas o emprego da vacina oral (Sabin) contra a poliomielite não será suficiente para a erradicação da doença no mundo – meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1988. A vacina oral (VOP) apresenta três problemas que dificultam o fim da pólio: os casos raros de poliomielite derivados da vacina, os surtos provocados por esses vírus e o declínio de sua eficácia ao longo dos anos. O alerta foi dado nesta sexta-feira (dia 28) pelo médico norte-americano Stanley Plotkin, professor emérito da Universidade da Pensilvânia e um dos criadores da vacina contra rubéola, durante o III Simpósio Internacional de Vacinas, realizado até amanhã (29) em São Paulo, sob a presidência do médico Calil Faraht, professor titular de Pediatria da Unifesp.

“Mesmo após a erradicação, a vacina injetável (VIP) poderia ser usada para prevenir a reemergência da paralisia, causada pelo vírus selvagem ou pelo vírus derivado da vacina”, afirma o especialista, membro do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, laureado com a medalha da Legião de Honra da França (1998) e a Medalha de Ouro Sabin (2002) e autor de 600 artigos científicos.

VACINA INJETÁVEL X VACINA ORAL

A primeira vacina contra poliomielite (Salk) foi criada na década de 1950. A vacina Sabin (VOP), de administração oral, foi criada nos anos 60. No início dos anos 90, mais de 90% dos países do mundo utilizavam a Sabin, que protege contra os três sorotipos dos poliovírus. Hoje, dos 190 países livres da poliomielite, 59 usam a VIP associada ou não à vacina oral.

Embora tenha um custo menor do que a vacina injetável, a VOP vem sendo substituída porque é produzida com vírus vivos enfraquecidos (atenuados). Já a vacina injetável é elaborada com vírus inativados (mortos). Essa característica da VOP provoca dois problemas: o surgimento raro de casos de poliomielite derivada da vacina e os surtos provocados por poliovírus derivado da vacina.

A poliomielite derivada da vacina ocorre quando o vírus atenuado, dentro do organismo da pessoa imunizada, entra em contato com outros vírus, sofre mutações genéticas, torna-se novamente virulento e provoca a doença. Este fenômeno acomete uma a cada 790 mil pessoas vacinadas, a maioria na primeira dose.

Se, além da virulência, o vírus readquirir a capacidade de transmissão pode causar surtos. Este tipo de fenômeno é mais comum em regiões com baixa cobertura vacinal, onde boa parte da população é suscetível à doença. O primeiro surto de vírus derivado da vacina foi detectado em 2000, quando apenas 20 países eram considerados endêmicos para a doença.

De lá para cá já foram confirmadas mais de 13 epidemias, afirma a pediatra Lucia Bricks, Doutora em Medicina pela USP e diretora médica da Sanofi Pasteur, a divisão de vacinas da Sanofi-Aventis. “Em 2000, apenas 15 países adotavam vacina inativada (injetável). Hoje são quase 60, porque o objetivo é eliminar completamente a poliomielite e não apenas a doença causada pelos vírus selvagens”, ensina a médica.

O terceiro problema da VOP é a perda da eficácia ao longo do tempo. Estudo encabeçado pela médica Sílvia Nates, da Universidade de Córdoba (Argentina), mostrou que em 297 pessoas imunizadas a proteção caiu significativamente após nove anos da administração da vacina. Após dois anos da imunização, a eficácia era 93% contra os três sorotipos da doença. Com o decorrer do tempo, essa proporção passou para 86% (cinco anos), 67% (10 anos) e 62% (18 anos).

Na opinião de Stanley Plotkin, a combinação das vacinas inativada (injetável) e oral poderia ser usada no processo de erradicação da pólio. Por ser elaborada com vírus inativado, a IPV seria muito importante na aplicação das primeiras doses, a fim de evitar o surgimento dos casos de poliomielite derivada da vacina e conseqüentes surtos.

A PÓLIO NAS AMÉRICAS E NO BRASIL

A OMS preconiza a substituição da VOP pela vacina inativada em países onde o vírus selvagem foi eliminado, além da manutenção de elevadas coberturas vacinais (superiores a 90% da população) e boa vigilância epidemiológica.

Na América Latina, o México foi pioneiro na adoção da vacina inativada no calendário básico, seguido da Costa Rica. Outros países planejam a mudança, porque hoje todos os casos de poliomielite nas Américas são associados à VOP. Há evidências de subnotificação de casos que chegariam a variar entre 300 e 600 por ano.

Na Índia, onde a pólio por vírus selvagem ainda é um problema, a Academia Indiana de Pediatria recomenda a mudança do esquema vacinal. Na opinião da médica Lucia Bricks, questões éticas – como direito à informação e justiça social – devem ser consideradas ao se analisar riscos, benefícios e custos dos programas de vacinação.

“No Brasil, a mudança ainda é pouco discutida, apesar de não haver nenhum caso de pólio por vírus selvagem desde 1989 e de a vacina inativada ser preconizada pelas sociedades médicas, como de uso preferencial, pelo menos nas duas primeiras doses. Esperamos que, em breve, a vacina inativada seja oferecida a todas as crianças brasileiras e não apenas àquelas de famílias com renda alta que podem adquirir vacinas inativadas na rede privada”, ressalta.

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