Ecos de uma obra ainda influente


Fonte: O Globo - RJ

Às vésperas do primeiro aniversário de sua morte, Johnny Alf é lembrado em caixa de três CDs, tem um disco inédito circulando e vai ganhar biografia nos próximos meses

Antônio Carlos Miguel

erto do primeiro aniversário de sua morte — aos 80 anos, em 4 de março de 2010 —, o pianista, compositor e cantor carioca pioneiro da bossa nova é lembrado numa caixa de três CDs — “Johnny Alf: entre amigos” (Lua Music) — que será lançada com uma série de shows, de hoje a domingo, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Mesmo que ainda para poucos, ele é um dos maiores nomes da canção brasileira, o homem que com suas rebuscadas harmonias influenciou dezenas de contemporâneos no início da década de 50 (Jobim, Donato, João Gilberto, Lyra, Menescal…) e continuou fazendo cabeças e corações desde então.

— Antes de ter uma ligação com a música brasileira, eu já ficava impressionado quando via Johnny na TVE. Ele foi o primeiro c antor brasileiro a usar a voz como um instrumento, e um compositor de beleza e complexidade absurdas, foi o nosso Billy Strayhorn, sua “Ilusão à toa” é a nossa “Lush life” — derrama-se Ed Motta, que está nos shows deste fim de semana e participa de um dos CDs da caixa, “Ao vivo e à vontade com seus convidados”, dividindo duas canções com Alf.

Emílio Santiago, outro participante da caixa — no CD “Johnny Alf por seus amigos”, que traz clássicos como “Rapaz de bem”, “Eu e a brisa”, “Ilusão à toa”, “Céu e mar” e “O que é amar”, com, entre outros, Leny Andrade, Joyce, Leila Pinheiro, Toquinho e Zé Renato —, diz que Alf sempre foi um dos seus compositores preferidos:

— Admiração que aumentou ao conhecê-lo, no início de minha carreira, na boate Fossa, convidado por Tito Madi. Johnny exerceu a liberdade criativa sem procurar o sucesso fácil. Sem ter o reconhecimento por tudo que criou, nunca reclamou.

Mais shows em março

Motivos não faltariam. “Desafinado”, por exemplo, canção-manifesto da bossa nova, foi criada por Jobim e Newton Mendonça a partir de “Rapaz de bem”, que Alf escreveu cerca de cinco anos antes.

— Em 1952, quando Johnny chegou à Zona Sul, para tocar na Cantina do César, logo rolou um bochicho sobre o cara que fazia harmonias inovadoras. Jobim foi conferir e, na mesma noite, pediu para ter aulas de harmonização — relembra o crítico de jazz José Domingos Raffaelli, que conheceu Alf em fins dos anos 40. — Ele estava num sebo de discos na Rua São José e começamos a conversar ao ver que tínhamos gostos musicais similares.

Produzido por Thiago Marques Luiz, que também dirigiu e fez o roteiro dos shows — em parceria com Nelson Valência, o empresário de Alf nos seus últimos 18 anos —, o tributo discográfico começou a nascer graças à voz do terceiro CD, “Alaíde canta Johnny — Em tom de canção”.

— Quando produzi Alaíde Costa cantando Milton, ela me disse que seu próximo projeto seria dedicado a Johnny, com sua participação, mas ele morreu alguns dias antes de entrarmos no estúdio — explica Thiago, que decidiu com a cantora focar na parcela menos conhecida do repertório do homenageado. — A que dá título ao CD, por exemplo, “Em tom de canção”, é de um especial que os dois fizeram em 1969 na TV Cultura, e Alaíde nem se lembrava mais dela.

Durante a produção, Nelson Valência comentou com o produtor que, a pedido de Alf, gravava todos os seus shows. Thiago passou dias ouvindo e selecionando a pilha de fitas e CDs para chegar às 14 faixas de “Ao vivo e à vontade com seus convidados”, em números solo ou em duetos com Cida Moreira, Ed, Leny e Cauby Peixoto.

As homenagens não param. Em março, os dois produtores farão mais shows, no Centro Cultural São Paulo, com alguns dos intérpretes desta série e outros amigos de Alf. Na mesma época, finalmente chegará às livrarias “Johnny Alf — Duas ou três coisas que você não sabe”, a biografia que João Carlos Rodrigues fez para a coleção Aplauso (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

— Com a mudança de governo e da direção da Imprensa, os lançamentos foram adiados para depois de fevereiro — explica Rodrigues, que foi amigo de Alf e produziu dois de seus discos, “Cult Alf” (97) e “Eu e a bossa” (98). — Sempre gostei da música dele e, no início dos anos 90, o conheci. Mas só quebrei o gelo quando nossa conversa enveredou pelo cinema. Ele adorava filmes antigos, em preto e branco, tinha uma grande coleção.

Há também um disco inédito, que tem sido saboreado por um fechado círculo de admiradores do artista. Clássicos da bossa nova em inglês, de Alf, Jobim, Menescal & Bôscoli, alguns em versões do próprio que nunca chegaram ao público. Mas questões autorais ainda impedem o seu lançamento comercial.

— A qualidade técnica é muito boa, mas faltam os nomes de músicos, produtores, técnicos… — diz Valência.

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