Cuba nega vinda de Yoani Sánchez para lançamento de filme na Bahia
Fonte: A Tarde - BA
Cuba nega vinda de Yoani Sánchez para lançamento de filme na Bahia
Débora Alcântara
Ela desistiu de ser filóloga e se convenceu de que o código binário é mais transparente do que a “intelectualidade elaborada”. Até tentou seguir o mesmo caminho dos dois milhões de exilados cubanos que fugiram para países estrangeiros, mas voltou da Suíça à pátria e apostou nas longas cadeias de HTML, dividindo os trabalhos de professora de espanhol freelancer para turistas em Havana com as crônicas cotidianas de uma Cuba com feições mumificadas em seu blog Geración Y. Traduzida em 15 línguas, a página da blogueira Yoani Sánchez na internet lhe rendeu a fama no mundo inteiro, inclusive despertando o assédio de governos opositores de los hermanos Castro e antipatias de simpatizantes da Revolução.
Atualmente, mais do que em qualquer outro país, ela é figura coringa nas discussões das redes sociais no Brasil. A repercussão é tanta, que chegou a colocar a presidente Dilma Rousseff em saia justa na relação diplomática com o camarada Raul Castro. Tudo isso porque, desde 2009, Sánchez tenta sair da ilha para vir ao Brasil, sem sucesso. A primeira motivação da desejada visita foi estar presente no lançamento do seu livro De Cuba com Carinho, pela Editora Contexto. Já recentemente, a polêmica esteve concentrada na expectativa da vinda da blogueira para o lançamento do documentário Conexão Cuba > Honduras, do documentarista baiano Dado Galvão, no próximo dia 10, no Centro de Cultura ACM, em Jequié, a 365 quilômetros de Salvador. Depois de 18 tentativas de Sánchez, o governo cubano anunciou ontem a negativa, mais uma vez, sobre a permissão para que ela saia da Ilha.
Simpatias – Não foi dessa vez que a campanha cibernética, mobilizada pelo documentarista Dado Galvão e simpatizantes, deu certo. Nem mesmo o apelo que sugeria a troca das imagens de perfil dos internautas pela foto da presidente Dilma Rousseff, feita pelo Dops em 1970, época em que foi capturada pela ditadura militar. “A ideia era fazer uma analogia da história da presidente à causa de Yoani”, disse Galvão.
“Sinto por ela não ter se pronunciado sobre algo que acontece em Cuba e que já aconteceu no passado do Brasil, atingindo a própria história da presidente. Me surpreende que ela venha à Cuba e não queira se encontrar com uma outra parte, viva e existente”, queixa-se Yoani Sánchez, em entrevista concedida ao ATARDE.
Segundo a blogueira, a presidente Dilma Rousseff não foi solidária com o povo cubano, mas somente ao governo dos irmãos Castro.
De acordo com Dado Galvão, o governador Jaques Wagner chegou a receber de suas mãos, em 2010, uma carta de Yaoni Sánchez, endereçada ao então presidente Lula. “Mas o governador se esquivou, alegando que este era um assunto diplomático e que não queria criar constrangimentos ao presidente”, disse Galvão.
Dois lados – Pessimista em relação às intenções da blogueira cubana, o jornalista e escritor Fernando Morais, autor do célebre livro-documentário A Ilha, um relato sobre a “ilha de Fidel Castro” escrito na década de 1970, afirma que correspondências enviadas a Washington pela Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana revelam que a blogueira mantém contatos regulares com a legação americana. “Até os albatrozes que sobrevoam o malecón de Havana sabem que o escritório de interesses dos EUA em Cuba é uma enorme e bem montada estação da CIA”, disse. De acordo com ele, Yoani Sánchez é apenas mais uma personagem entre as várias inventadas pelos Estados Unidos para “envenenar” as relações de Cuba com a opinião pública internacional.
“O que testemunhei foi a expressão da opinião de uma mãe-de-família sobre a falta de liberdade e carências da vida cotidiana da cidade. Ela foge do oposicionismo oficial. Os textos do seu blog não propõem a derrubada do regime, nem fazem proselitismo partidário”, atesta o também jornalista e escritor Sandro Vaia, autor do livro A Ilha Roubada – Yoani, a blogueira que abalou Cuba, lançado em 2010 pela Editora Barcarolla. De acordo com Vaia, que passou dezembro de 2009 acompanhando e escrevendo sobre a vida da blogueira, “numa prosa clara e correta”, Yoani fala do pão amanhecido, da difícil convivência das duas moedas que existem no país, do diploma que o filho recebeu na escola com o retrato de Fidel Castro, das artimanhas e pequenas transgressões que os cubanos são obrigados a fazer para sustentar as suas famílias, dos velhos elevadores soviéticos que não funcionam, além dos milhares de cartazes que “gritam, enferrujados”, slogans políticos e patrióticos.


Voltar
Nenhum Comentário
Nenhum comentário ainda.
Deixe um comentário