Caos e oito mortes diferentes no pequeno burgo


Fonte: Jornal do Comércio - RS

Caos e oito mortes diferentes no pequeno burgo

No vilarejo Burgo São Judas, de 74 casas (mais da metade abandonadas), um bar, uma mercearia e uma igreja com presbitério, nada acontecia e ninguém entendeu como aquelas doze mortes ocorreram, justamente onde nada ocorria. Assim começa a narrativa de XY, o novo romance do escritor italiano Sandro Veronesi. Em XY, numa manhã, no vilarejo, uma mulher acorda desesperada, banhada em sangue. Constata que a cicatriz de um corte sofrido no dedo há mais de quinze anos reabriu de forma inexplicável. Ao mesmo tempo um sacerdote descobre os horrores guardados sob a neve da pequena localidade italiana: corpos de adultos e crianças mortos de uma maneira que desafia a lógica e vão colocar em teste a fé do pároco. A relação entre o sangramento e a série de assassinatos vai ligar o padre e a mulher para sempre. Giovanna Gassion, psiquiatra e psicóloga, sempre pautou sua vida pela racionalidade e manteve enterrados dentro de si traumas, dúvidas e desilusões. Ao ver seu próprio sangue, ela tem reaberta, além de sua própria ferida, toda a experiência que a levou a cortar o dedo na adolescência. Sem explicações para os assassinatos inusitados, a médica praticamente tem sua sanidade posta em xeque quando descobre que o corte voltou a sangrar justamente no mesmo momento em que ocorreram as mortes em São Judas. O sacerdote tem sua vida posta de cabeça para baixo por ser uma das testemunhas da descoberta de corpos enterrados sob o gelo. A polícia desorientada o aponta como suspeito, mas desconfia de um atentado terrorista. Perseguido pelas autoridades que tentam mascarar a verdade, o sacerdote fica sem alternativa e permanece na cidade, numa espécie de cárcere privado. Oito adultos, duas crianças, um cavalo e um cachorro morreram cada um de um jeito diferente, seja por doença, acidente, engasgo com casca de pão e até mesmo por mordida de tubarão, em plena montanha. O sacerdote busca esclarecimentos racionais e científicos com a psiquiatra. Ela não apresenta a sanidade mental habitual, pouco pode fazer. Ou seria ela a chave do enigma? Teria alguém sobrevivido à chacina? A visão científica da mulher (X) representada pela médica e as questões da fé (Y) representadas pelo sacerdote vão se alternar e os dois vão revendo seus conceitos. Delírio, medo, impotência e angústia estão presentes. Se dissipará a espessa bruma do mistério e do horror? Teriam todos perdidos a fé e o juízo? Editora Rocco, 320 páginas, R$ 45,00, www.rocco.com.br
Lançamentos
A dinastia Rothschild – A trajetória da grande família de banqueiros ao longo de dois séculos, do biógrafo americano Herbert R. Lottman, autor de A Rive Gauche, mostra a célebre família de negociantes cuja história se confunde com os principais lances da história europeia dos dois últimos séculos. L&PM Editores, 400 páginas, www.lpm.com.br

A coragem da verdade – O Governo de Si e dos Outros II, do pensador francês Michel Foucault, traz os ensinamentos do Curso no Collège de France ( 1983-1984). Interroga profundamente a função do “dizer a verdade” na política, para estabelecer para a democracia um certo número de condições. WMF Martins Fontes, 342 páginas, www.wmfmartinsfontes.com.br

2012 – A guerra pelas almas, do americano Whitley Strieber, parte do fato de o calendário maia prever para 21 de dezembro de 2012 o fim do mundo e da era atual. A raça humana desaparecerá. Na narrativa eletrizante somente uma pessoa poderá impedir a tragédia. Editora Planeta, 352 páginas, www.editoraplaneta.com.br

Bilhete seco, da escritora, tradutora e preparadora de textos Elisa Nazarian traz contos breves, escritos com linguagem econômica e direta, mas sensível, sobre pessoas, pássaros, situações e ambientes que remetem a pessoas, sentimentos e relações dos dias que correm. 110 páginas, Ateliê Editorial, www.atelie.com.br e palavras…

Livros impressos, dinossauros, eBooks, iPads, etc

Faz uns 36 anos que comecei a resenhar livros na imprensa. Portanto, se não aprendi, não posso botar a culpa no tempo. Gostar de livros impressos. Tem horas que me sinto um dinossauro no meio de um salão de um museu (de Nova Iorque, História Natural, de preferência), meio assim feliz e soterrado em meio a milhares de volumes, esses objetos seculares, de design imbatível e fascínio infinito. Fico pensando se não seria melhor assinar um coluna sobre viagens turísticas espirituais ou hábitos na internet, sei lá. Há uns 20 anos um ex-editor de PA me disse na Feira do Livro que o livro tinha morrido, que seria tudo eletrônico e tal. Ele tornou-se escritor e vive – e bem – de livros impressos. Sim, eBooks, iPads e outros meios estão aí, fazendo algum ou muito sucesso, mas é bom lembrar que conforme a Câmara Brasileira do Livro o número de exemplares vendidos aumentou em 13% em 2011, que há tendência de queda no preço e que, assim, o número de exemplares e leitores tende a aumentar. Coisas boas. Tomara! Acho que aí esta coluna de Livros do JC, que vai fazer 18 anos de circulação semanal e ininterrupta, vai seguir por mais uma data. Aí o titio aqui se aposenta, se jubila en Punta del Este, ou, quem sabe, se torna colunista de eBooks ou se reinventa com algum outro lance do momento. Segundo matéria simpática do New York Times de 20 de novembro de 2011, especialistas e famílias que opinaram sobre livros acham que o papel tem ainda algumas vantagens sobre as mídias digitais. Na matéria o executivo Mateus Thomson, 38 anos, de um site de mídia social, acha que o filho de 5 vai aprender a ler mais rápido com o livro e que, de noite, deve haver hora de leitura de papel. Para ele os sinos e assobios de um iPad se tornam mais uma distração e ele pensa que se o menino ficar só com o tablet, acabará se distraindo e brincando com jogos o tempo todo, sem a concentração indispensável aquela da leitura. É isso. Concordo, o livro segue como meio mais completo, abrangente e importante para a difusão de conhecimento e acho que a coluna e eu estamos garantidos por mais uns tempos, se os queridos leitores me derem esse prazer. Topo. Prometo seguir defendendo os impressos. De mais a mais, não custa lembrar, mesmo e principalmente em causa própria, que dinossauros até que são uns bichos simpáticos e legais, especialmente quando estão bem alimentados, calmos, silenciosos e imersos em alguma leitura gostosa. (Jaime Cimenti)
e versos

A “Esperança” é o ser de plumas
Que pousa em nossa Alma -
E solta um canto sem palavras -
E não para – jamais -

E ao vendaval – fala mais doce -
E é o temporal mais crespo
Que há de calar o Passarinho
Que a tantos aqueceu -

Ouvi-o nas mais frias terras -
Nos Mares mais estranhos -
Mas nunca, na maior Miséria,
Me pediu – do meu pão”

Emily Dickinson, em A branca voz da solidão, Iluminuras, www.iluminuras.com.br

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