Beatriz Coelho Silva lança perfil de Wagner Tiso, homenageado da Mimo e autor do hino da campanha das Diretas Já
Fonte: Jornal do Commercio - PE
Beatriz Coelho Silva lança perfil de Wagner Tiso, homenageado da Mimo e autor do hino da campanha das Diretas Já
José Teles
teles@jc.com.br
A jornalista Beatriz Coelho Silva conhece Wagner Tiso desde os anos 80, quando escrevia para os cadernos de cultura dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo, porém nunca pensou em assinar uma livro sobre o músico, até que a empreitada lhe foi sugerida pelo crítico Rubem Ewald Filho. Ele coordena a coleção Aplauso, editada pela Imprensa Oficial, do governo paulista, até então direcionada para o cinema: “O livro seria sobre o Wagner Tiso autor de trilhas sonoras. Acabou sendo um trabalho sobre o músico Wagner Tiso, também autor de trilhas”, diz Beatriz, que lança o livro, hoje, a partir das 19h, na Livraria Cultura, com a presença do músico, que este ano é o compositor residente da Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo), que vai acontecer de hoje até o dia 7.
Som, imagem, ação (215 páginas, R$15) não é uma biografia no sentido tradicional do formato: “Não é uma biografia aprofundada, mas sim um perfil de Wagner, como é feito nos jornais. Porém um perfil longo, foram 30 horas de entrevistas, é uma história contada na primeira pessoa por ele”, explica a jornalista, que contou com a ajuda da admiração de que desfruta Wagner Tiso no meio artístico: “Eu não destacaria nenhum trecho do livro. O que destaco é o próprio Wagner Tiso. Era falar no nome dele e todas as portas se abriam. Por exemplo, eu precisava assistir a Os deuses e os mortos o diretor, Ruy Guerra, só possuía uma única cópia do filme e mesmo assim me emprestou”, conta Beatriz, que viu todos os filmes e conversou com os diretores.
O cinema ocupa um espaço importante não apenas no livro, mas na vida do músico. Algo que vem de quando foi garoto e adolescente em Três Pontas (MG), e assistia a todos os filmes que passavam na cidade com o amigo Bituca, ou melhor, Milton Nascimento: “Íamos ao cinema quase diariamente, principalmente para ouvir as trilhas, que nós adorávamos. Em Três Pontas, havia o Cine Ouro Verde, o único com tela cinemascope na região”, lembra Tiso. Anos mais tarde, a música do mineiro pontuaria diversos filmes, entre os quais A lyra do delírio (Walter Lima Jr.1969), Ele, o boto (Walter Lima Jr. 1987), e O grande mentecapto (Oswaldo Caldeira, 1989), Sonhos e desejos (Marcelo Santiago, 2009), Jango (Sílvio Tendler, 1984).
Beatriz Coelho Silva destaca que a importância de Wagner Tiso na cultura brasileira nas últimas três décadas (pelo menos), transcende a área musical: “Neste livro eu quis contar também um pouco da história do Brasil. Wagner como arranjador participou da história da MPB ao longo desses anos. Participou da inauguração do Canecão, com Maysa, e da praça da Apoteose, com Milton Nascimento. Participou também da história do País, pelas suas posições políticas. Filmes que musicou, feito Jango, contribuíram para impulsionar a abertura, ele foi fundador do PT. Uma música sua, do filme Jango, virou hino da abertura: Coração de estudante”. No livro, Wagner Tiso conta sobre a música que virou tema das Diretas Já: “Eu já tocava em shows, na versão instrumental. Milton Nascimento, que ouvira o tema naquela sessão do Méridien, criou a letra, deu título e gravou… Ainda no início de 1985, virou a trilha sonora da eleição de Tancredo Neves, sua doença, sua morte, e até o seu enterro. O seja, enterrou três presidentes, Vargas, Jango e Tancredo. É um réquiem, uma pavana”.
Som, imagem, ação é também a trajetória de dois meninos do interior de Minas. Um branco, descendente de europeus do Leste. O outro negro, nascido no Rio, adotado por uma família de brancos, que trilharam caminhos vitoriosos. A amizade consolidada na infância, quando, enfrentaram até o preconceito no País da “democracia racial”: “Sempre havia baile na região e nós íamos juntos ver. O Bituca não entrava no Clube de Três Pontas por ser negro e eu, apesar de sócio, ficava no banquinho do jardim com ele, solidário”. Beatriz Coelho Silva acabou de escrever mais um livro para a coleção, sobre Alceu Valença, o Porque eu gosto de correr perigo, previsto para ser lançado ainda este ano.


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