“Aprendi que quem lê com prazer aprende mais”
Fonte: Folha de Pernambuco - PE
Rubem Alves, poeta, cronista, teólogo e escritor de mais de 80 obras Sofrimento e prazer. Era o livro que ele diz, já de cara, no prefácio, que não deveria ter escrito. Não achava o fim. Mas lendo que Albert Camus queria escrever tudo que lhe passasse pela cabeça, ‘sem ordem’ (“Cadernos da Juventude”), e morreu antes, decidiu fazer um “Livro Sem Fim” (2002 – Loyola) que, na re-edição, lançada em janeiro deste ano (Editora Planeta), virou “Variações Sobre o Prazer”. Um livro saboroso, feito para ser devorado. Rubem Alves, poeta, cronista, teólogo, psicanalista e escritor com mais de 80 obras publicadas conseguiu, como um ‘chef’, juntar e temperar, nele, como ele mesmo diz, “palavras que são boas para comer”.
“Essa é a verdadeira função de um escritor”, defende em entrevista para falar da publicação – um livro sem notas de rodapé mas, como foi feito para ser comido, com notas de ‘can apé’ para se saborear na caminhada por Descartes, Nietzsche, Marx, Agostinho de Hypona, Kierkegaard, Kant com paisagens e contrapontos de Goethe, Mário Quintana, Fernando Pessoa… Uma delícia.
Porque logo de saída, no prefácio, você avisa – Eu não deveria ter tentado escrever este livro?
Porque o livro estava me fazendo sofrer. Fiquei obcecado com a ideia, que me parecia muito boa. Todos os meus momentos livres, eu os dedicava a escrever. E, com isso, não me sobrava tempo para o prazer. Escrever deve ser uma experiência de felicidade.
“Variações Sobre o Prazer” ou o “Livro Sem Fim” apareceu como uma espécie de contestação ao método, ressistematização ou por puro prazer, para negar tudo isso?
Não, eu não estava pensando em contestar o “método”. O que eu queria era fazer o que Albert Camus desejava. No seu “Cadernos da Juventude”, escreveu: “Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça”. ( A. Camus, Primeiros Cader nos, p. 427). Ele não teve essa chance. Morreu antes.
Qual o peso que o ‘crepúsculo’ (a velhice) teve na decisão de trocar os ‘saberes’ – o conhecimento formal que é bom e útil – pelos ‘sabores’, o saber com gosto, alegria, prazer?
Precisei, primeiro, libertar-me das regras do discurso acadêmico. E isso aconteceu não por uma decisão pensada, mas pela minha experiência com a minha filha pequena. Comecei a escrever estórias para crianças em resposta às suas perplexidades e sofrimentos.
No seu livro a gente entra no mundo classificado como ‘pesado’ da Filosofia e examina universos distintos a partir de paisagens, contrapontos ou ‘ilustrações’ de Goethe, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Roland Barthes… Que ‘feitiçaria’ o senhor usa para escrever, que pode se transitar por esses filósofos como quem mora num sítio e vai ao galinheiro, no quintal, buscar um ovo para fritar. E volta, e frita e come o ovo ‘estalado’ e se lambuza?
Gostei da metáfora… É isso mesmo. Cada uma das pessoas que você cita é um ninho cheio de ovos. Compete ao escritor exercer com os ovos a sua arte de “chef”… Produzir palavras que são boas para comer. Não uso feitiçaria alguma. Não tenho um método. As palavras e as ideias simplesmente vêm. Feiticeiro não sou eu. São as palavras…


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